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sábado, 6 de junho de 2020

Pesquisador explica 'forte cheiro de fumaça' sentido em diferentes regiões de Natal

Queimadas na região central-sul da África combinadas com um panorama climático favorável podem ajudar a entender o fenômeno, explica Humberto Barbosa, da Universidade Federal de Alagoas

Fumaça vinda da África chega a Natal - Foto: Lapis/Reprodução
Moradores de Natal foram às redes sociais para relatar um forte cheiro de fumaça, que foi sentido entre a noite de quinta (4) e a manhã desta sexta-feira (5) em diferentes bairros da capital. Apesar disso, o Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Norte não registrou nenhuma ocorrência de incêndio na cidade, o que intrigou os natalenses.

A explicação para este fenômeno pode estar bem distante da capital potiguar, mais precisamente na região central-sul da África. Isso porque nesta época do ano são registrados pontos de queimadas nas florestas de Angola, Zâmbia e principalmente no Congo. Esse evento combinado com o deslocamento da alta subtropical do Atlântico Sul seria o responsável pelo cheiro de fumaça sentido em Natal. O fenômeno pode inclusive agravar problemas respiratórios.



Além do Corpo de Bombeiros, a reportagem do G1 consultou a Defesa Civil, que também não atendeu a nenhum chamado no período, e ouviu especialistas para explicar a fumaça misteriosa. Os meteorologistas Gilmar Bristot e José Espínola disseram que apuram o fenômeno.

"Senti esse cheiro por volta de meia-noite. Minha vizinha é fumante então pensei que pudesse ser ela. No grupo de WhatsApp alguém perguntou 'estão sentindo cheiro de fumaça?' e eu achei estranho porque esse amigo mora a uns três quilômetros daqui. Logo depois vi que tinha muita gente falando disso em outros bairros", conta o servidor da UFRN Hudson Medeiros, que mora em Neópolis, zona sul da capital.

A psicóloga Raíssa Nóbrega, que mora em Petrópolis, na zona leste da cidade, também percebeu o cheiro. "Vi as pessoas comentando no Twitter e fui ver se sentia. Achei que era um incêndio forte, mas ninguém relatou nada. Acordei minha mãe e tudo para fechar as janelas", diz.

O fenômeno também surpreendeu o geofísico espacial e coordenador-geral da Rede Nordeste Aeroespacial, José Henrique Fernandez. Morador de Candelária, na Zona Sul de Natal, o professor inicialmente considerou a hipótese de que alguma fogueira teria sido acesa na região. Após os diversos relatos, José Henrique também passou a estudar o caso.

Explicação
A explicação científica para o cheiro de fumaça misterioso veio do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). O professor e coordenador do Lapis, Humberto Barbosa, explicou que o cheiro de fumaça pode ser entendido a partir da combinação de dois componentes.

"A parte central africana, principalmente no Congo, nessa parte do ano começa a ter um aumento das queimadas. É um processo natural, mas tem ano que isso é mais intenso. No entanto, isso sozinho não estaria fazendo com que esse mau cheiro chegasse a Natal. O outro componente é alta do Atlântico Sul, que é um sistema de circulação. Essa circulação está em alto nível levando um pouco dessa fumaça para a região próxima de Natal", detalha.

De acordo com o professor, a alta do atlântico sul funciona como uma espécie de ventilador empurrando as partículas de fumaça para a costa natalense. Ainda segundo Humberto Barbosa, as queimadas na África, assim como em todo o mundo, são majoritariamente induzidas por processos de desmatamentos, agricultura e práticas agrícolas.

Com os ventos de sudeste mais intensos que transportam as partículas de fumaça das queimadas, a situação climática permanece favorável e novos eventos semelhantes poderão acontecer na capital. "Forma-se um corredor ou esteira de partículas que estão saindo da África para Natal em função das condições meteorológicas", completa.

As partículas reduzem a qualidade do ar e podem provocar problemas respiratórios para quem sofre de asma e rinite, por exemplo. "São partículas perigosas, muito finas, invisíveis, não tem como enxergar. É preciso ter cuidado", orienta o professor.

Bruno Vital – G1 RN

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